Artigos de opinião

Entre um sopro e o fôlego de vida

Por: Robson Ferraz¹

Quero compartilhar uma das experiências mais inusitadas, indesejadas e marcantes da minha vida. No início do mês de março deste ano, em plena semana de trabalho na linha de frente do Covid, nas campanhas de vacinação, acompanhando os profissionais da saúde em Sapucaia do Sul, comecei a sentir sintomas e imediatamente realizei o teste. No intervalo entre o exame e o resultado, minha esposa me levou para fazer uma tomografia e o resultado acusou que eu estava com 70% dos pulmões comprometidos. Estava praticamente sem capacidade pulmonar, já com água nos pulmões. E este foi o momento que marcou minha internação hospitalar. Parecia mentira porque foi tudo muito rápido.

A partir disso, fiquei numa cadeira, recebendo oxigênio e vendo as pessoas passarem das máscaras para o tubo. Eu estava consciente. Naquele momento isso era algo positivo porque tive a oportunidade de fazer um exercício de observar o que acontecia. Acompanhei profissionais da saúde fazendo o seu melhor com os recursos que tinham e pessoas totalmente dependentes destes cuidados. Enquanto muitos pacientes estavam inconscientes, eu tinha a dádiva de ainda manter minha atenção em algo. O maior desafio foi manter o controle porque saber que está doente, ter dificuldades de respirar e não permitir que o nervosismo tome conta a ponto de dificultar ainda a entrada do pouco ar que chegava até meus pulmões, foi extremamente desafiador.

Ao ter consciência da situação, meu sofrimento transitou entre minha dificuldade em respirar com o cateter de oxigênio, sabendo do meu diagnóstico, e tendo que manter a calma mesmo diante de tudo o que passava diante dos olhos. Pessoas que não mais passavam por mim porque eram levadas já falecidas. E outras que ali estavam, ainda vivas, mas em dificuldades extremas, muito piores que a minha. Era um misto de desespero, lamento, esperança e ao mesmo tempo, de gratidão por estar vivo.

Como fiquei atento às coisas que se passavam, não perdi a fé, mesmo sabendo que a doença atacou meus pulmões e minha coagulação. Mesmo sabendo que com o tempo fui perdendo junto com a massa magra, o meu o peso, e automaticamente, minha capacidade de sair daquela situação. Apesar do cenário caótico, minha promessa se manteve fortalecida pelas orações de quem estava fora do hospital. Meus amigos e familiares foram decisivos, porque a fé que mobilizaram é algo imensurável.

Eu vejo que Deus foi misericordioso comigo, pois me deu um novo fôlego. Apesar de intenso foi tudo muito rápido. Eu perdi muitos amigos e conhecidos. E o que posso dizer a partir do que vivi? Que é uma situação que foge do teu controle, porque a doença não escolhe classe social, cor, nem intelecto. A prova disso é que existem médicos hospitalizados também, além de empresários na cidade, disputando vagas e leitos com pessoas do SUS. Não tem privilégios nessa doença. Ela simplesmente ataca, independente de plano de saúde.

Minha vida pós-hospital ainda é marcada pela recuperação. Agora é uma luta constante de voltar à capacidade integral que se tinha antes, se é que isso um dia será totalmente possível. Estou reaprendendo a respirar profundamente, da forma correta, usufruindo novamente da capacidade que meus pulmões estão recuperando. Não é um processo natural e muito menos fácil porque é preciso recuperar a confiança em respirar, com muita paciência e exercícios de fisioterapia respiratória.

Durante este período tenho lembrado de reflexões que fiz com um grupo de pessoas durante um treinamento chamado TAVI, da minha amiga Lília em São Leopoldo, porque é preciso ser forte e redobrar uma consciência da vida que a gente só relembra a partir de experiências decisivas como essa que passei. É tu olhar para uma folha que cai, assim como em uma formiga, que representa o que somos nesse mundo. É preciso estar com a mente saudável para recuperar a vida.

O que eu gostaria de deixar para as pessoas agora é que esse vírus é maligno e usa as pessoas para dissipá-lo. Está em cada um de nós agirmos para contê-lo. E, além disso, deixo meu apelo aos cuidados que os profissionais da saúde requerem, por estarem vivendo momentos totalmente atípicos. Toda essa pressão fora do normal, diante de pacientes entre a vida e a morte, ao mesmo tempo em que precisam administrar suas próprias emoções, gera inúmeros agravamentos que ainda não vieram à tona para muitos, mas que certamente em breve darão sinais de que precisam ser olhados e cuidados também. Não é fácil estar hoje com um paciente que precisa de ar e que amanhã já pode não mais estar ali. É muito anormal perder pessoas dessa forma, dependendo de algo tão simples, um fôlego, um suspiro profundo. É uma experiência que fica marcada como um sopro e um fôlego de vida.

Originalmente publicado no jornal Conhecimento, de São Leopoldo – RS

¹Guarda Municipal de Sapucaia do Sul – RS